Alberto Guerreiro Ramos

Alberto Guerreiro Ramos nasceu em Santo Amaro (BA) no dia 13 de setembro de 1915, filho de Vítor Juvenal Ramos e de Romana Guerreiro Ramos. Casou-se com Clélia Guerreiro Ramos, com quem teve dois filhos. Em 1939, ganhou uma bolsa do governo do Estado da Bahia para cursar Ciências Sociais no Rio de Janeiro, na então Universidade do Brasil, onde se formou em Ciências Sociais em 1942 e em Direito em 1943, pela Faculdade de Direito do Rio de Janeiro.

Guerreiro Ramos tinha uma ampla e rica formação intelectual. No final da década de 1930 e início da de 1940, era fortemente influenciado pela intelectualidade francesa, sobretudo o pensamento católico do grupo francês L’ Espirit, chefiada por Emmanuel Monier e da revista L’Ordre Nouveau. Mas, o próprio Guerreiro Ramos considerava que foi Nicolau Berdiaeff a influência mais poderosa de sua vida (Oliveira, 1995). Desde 1944 passa a ser influenciado por Max Weber e a partir dele passou a se interessar pela teoria das organizações.

Vida Política
Assessorou o presidente Getúlio Vargas durante seu segundo governo, atuando em seguida como diretor do departamento de sociologia do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (Iseb). Gozando de autonomia administrativa e de plena liberdade de pesquisa, de opinião e de cátedra, o Iseb destinava-se ao estudo, ao ensino e à divulgação das ciências sociais, cujos dados e categorias seriam aplicados à análise e à compreensão crítica da realidade brasileira, além da elaboração de instrumental teórico que permitisse o incentivo e a promoção do desenvolvimento nacional. Constituiu um dos núcleos mais importantes de formação da ideologia "nacional-desenvolvimentista" que impregnou todo o sistema político brasileiro no período compreendido entre a morte de Vargas, em 1954, e a queda de João Goulart, em 1964.
Ingressou na política partidária em 1960, quando se filiou ao Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), a cujo diretório nacional pertenceu. No pleito de outubro de 1962 candidatou-se a deputado federal pelo então estado da Guanabara, na legenda da Aliança Socialista Trabalhista, formada pelo PTB e o Partido Socialista Brasileiro (PSB), obtendo apenas a segunda suplência. Ocupou uma cadeira na Câmara dos Deputados de agosto de 1963 a abril de 1964, quando teve seus direitos políticos cassados pelo Ato Institucional nº 1.
Segundo o Correio Brasiliense, em edição de outubro daquele ano, Guerreiro Ramos foi partidário do intervencionismo econômico, do monopólio estatal do petróleo, da nacionalização da indústria farmacêutica e dos depósitos bancários, considerando necessária a reforma constitucional a fim de que, com o pagamento das desapropriações em títulos da dívida pública, se pudesse promover a reforma agrária, inicialmente cooperativista, mas sem considerar necessária qualquer experiência coletivista. Defendeu também as reformas eleitoral — voto para os analfabetos e soldados e elegibilidade de todos os eleitores —, bancária e administrativa.
Jornalista, colaborou em O Imparcial, da Bahia, O Diário, de Belo Horizonte, e Última Hora, O Jornal e Diário de Notícias, do Rio de Janeiro.
Secretário do Grupo Executivo de Amparo à Pequena e Média Indústrias do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE), foi ainda assessor da Secretaria de Educação da Bahia, técnico de administração do Departamento Administrativo do Serviço Público (Dasp) e fez a primeira pesquisa de padrão de vida no Brasil, em 1952.
Foi membro da Delegação do Brasil à Assembléia Geral das Nações Unidas (ONU), em 1961.

Sociólogo
Foi uma figura de grande relevo da ciência social no Brasil. "Sou um homem", dizia ele uma vez, anos atrás, a um grupo de ávidos estudantes de sociologia belorizontinos, "que tem a responsabilidade de pensar o Brasil 24 horas por dia".
Foi professor da Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas (Ebap-FGV), assim como do Departamento Nacional da Criança e dos cursos de sociologia e problemas econômicos e sociais do Brasil, promovidos pelo Dasp. Foi também Professor Visitante da Universidade de Santa Catarina.
Em 1955, foi conferencista visitante da Universidade de Paris.
Em 1956, Pitirim A. Sorokin, analisando a situação da sociologia na segunda metade do século, inclui Guerreiro Ramos entre os autores eminentes que contribuíram para o progresso da disciplina.
Guerreiro Ramos deixou o país em 1966, radicando-se nos Estados Unidos, onde inspirou toda uma geração de estudantes como professor da Escola de Administração da Universidade do Sul da Califórnia.
É autor de dez livros e de numerosos artigos, muitos dos quais têm sido disseminados em inglês, francês, espanhol e japonês. Guerreiro Ramos pronunciou conferências em Pequim, Belgrado e na Academia de Ciências da União Soviética. Nos anos de 1972 e 1973 foi "visiting fellow" da Yale University e professor visitante da Wesleyan University.
Faleceuem 1982, em Los Angeles, aos 67 anos, vítima de câncer.

Ancestralidade Africana
Sempre demostrou muito orgulho de sua ancestralidade africana.
O Teatro Experimental do Negro criou um departamento de estudos e pesquisas denominado Instituto Nacional do Negro, coordenado por Guerreiro Ramos. Em 1949, ele inicia atividades com o “Seminário de Grupoterapia”, a partir “da constatação em numerosas pesquisas de que, o ressentimento é uma das matrizes psicológicas mais decisivas do homem negro brasileiro”, passa a viabilizar o grupoterapia como um espaço que possibilita catarse e reflexão das seqüelas trazidas de um passado escravo, de uma vivência de ausência de um lugar, de uma identidade fragmentada.
O jornal “Quilombo”, importante instrumento de comunicação criado e publicado pelo Teatro Experimental do Negro entre 1948 e 1950 publicou 10 números e em 03 números Guerreiro Ramos escreveu sobre Grupoterapia, Psicodrama e Socio-drama. No jornal Quilombo número 6, de fevereiro de 1950, Guerreiro Ramos nos fala que o teatro é uma forma particularíssima do drama e que foi J.L. Moreno quem mais contribuiu para a nova interpretação do significado do drama, através do Psicodrama que ele considera “um método de análise das relações humanas e um processo de terapêutica psicológica”Conviveu num contexto acadêmico em que "os estudos sobre os negros brasileiros", como ele definiu, já estavam consolidados e eram realizados quase que exclusivamente por pesquisadores brancos.
No que se refere aos estudos sobre as hierarquias raciais, Guerreiro destaca o fato de que os trabalhos sociológicos deveriam ajudar a encontrar saídas para a marginalidade da população negra brasileira, em vez de simplesmente descrever a cultura. Guerreiro não aplicou o seu rigor metodológico e sua perspectiva teórica na realização de uma pesquisa sobre os negros no Brasil, embora tenha realizado críticas contundentes aos estudos produzidos sobre o tema, demarcando diversas vezes o seu descontentamento com o que estava sendo escrito. De acordo com ele, os estudos produzidos em nada contribuíam para melhorar a vida dos negros brasileiros, uma vez que a ênfase era atribuída aos aspectos exóticos, ou melhor, os negros eram vistos como um espetáculo.
"Há o tema do negro e há a vida do negro. Como tema, o negro tem sido, entre nós, objeto de escalpelação perpetrada por literatos e pelos chamados 'antropólogos e sociólogos'. Como vida ou realidade efetiva, o negro vem assumindo o seu destino, vem se fazendo a si próprio, segundo lhe têm permitido as condições particulares da sociedade brasileira. Mas uma coisa é negro-tema; outra, é negro vida".
Ao refletir sobre essas dimensões Guerreiro tece considerações acerca da patologia social dos brancos brasileiros e, principalmente, da patologia dos brancos nordestinos. A patologia, ou protesto da minoria branca nos estados dessas regiões consistia numa constante reivindicação das origens da própria brancura, o que Guerreiro às vezes define como a perturbação psicológica em sua auto-avaliação estética; além de demonstrar "inferioridade sentida com excessiva intensidade e superioridade, desejada, mas fictícia", por isso, "Ao tomar o negro como tema, elementos da camada 'branca' minoritária se tornam mais brancos, aproximando-os de seu arquétipo estético – que é o europeu"
Guerreiro tem uma forma de fazer ciência e de produzir conhecimento que vai de encontro aos moldes hegemônicos, que se contrapõe à nossa propalada cordialidade. O estilo contraditório e provocador adotado por Guerreiro destoa do nosso estilo polido de fazer ciência. As críticas dirigidas por Guerreiro a nomes consagrados nas ciências sociais brasileiras como, por exemplo, Arthur Ramos e Florestan Fernandes, não deixam dúvidas sobre o seu estilo.
"Mas eu escrevi antes deles, antes do estudo do Florestan. Primeiro, eu fiz o congresso dos negros brasileiros e o expliquei como o congresso de brancos brasileiros. O sujeito analisava o sangue do negro brasileiro, o tamanho do nariz, o cabelo etc. Era preciso, assim, analisar o sangue, o nariz e o cabelo do branco brasileiro. Há um estudo meu chamado 'Patologia do Branco Brasileiro' onde eu inverti o problema. Num país de negro como o nosso, falar do problema do negro é uma cretinice".
"O Velho Guerreiro me ensinou a sempre lembrar que ele era da Bahia, e tinha um grande orgulho de nossa ancestralidade Africana. O pai de Guerreiro, meu Avo Vitor Juvenal Ramos, nasceu escravo em 1873. mas do tal Ventre Livre. A Mae dele nasceu na Angola, e foi por sua própria familia vendida ao negreiro. Depois de sermos exilados da Patria Amada, nenhum de nós voltou ao Brasil a não ser para visitar familia." Alberto Guerreiro Ramos, filho.

Ser Humano
O resultado de toda essa competência foi a formação de um ser humano de vida dinâmica e multidimensional- catedrático, conselheiro, poeta, teórico, mestre, amigo - um gênio da vida. Sério com os colegas, fervoroso, provocante e zeloso com seus estudantes, ele encarou plenamente seu pensamento de que a vida é um processo ativo e deliberado a ser experimentado integralmente. Cidadão do mundo, Guerreiro Ramos, nessa sua luta por um futuro mais humano, foi também um cidadão muito especial daqueles países aos quais tanto deu de si- Brasil e Estados Unidos.

Algumas de suas obras
* RAMOS, Alberto Guerreiro. A nova ciência das organizações: uma reconceituação da riqueza das nações. Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getúlio Vargas, 1989

* RAMOS, Alberto Guerreiro. Administração e Contexto Brasileiro - Esboço de uma Teoria Geral da Administração. Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getúlio Vargas, 1983

* RAMOS, Alberto Guerreiro. Administração e Estratégia do Desenvolvimento - Elementos de uma Sociologia Especial da Administração. Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getúlio Vargas, 1966

* RAMOS, Alberto Guerreiro. A Redução Sociológica - Introdução ao Estudo da Razão Sociológica. Rio de Janeiro: Edições Tempo Brasileiro Ltda, 1965

* RAMOS, Alberto Guerreiro. Introdução Crítica à Sociologia Brasileira. Rio de Janeiro: Editorial Andes Ltda, 1957
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