Sobre desafios geopolíticos – Alexandre Faria (EBAPE/FGV)

ALEXANDRE FARIA
alex.faria@fgv.br

 

Com o ocaso da Guerra Fria e a ascensão da globalização neoliberal, temos observado nos últimos anos um processo extraordinário e sem precedentes de expansão das fronteiras do conhecimento. Esse processo se caracteriza por três vertentes principais. A primeira é a transformação sistemática de tudo que não é conhecimento em conhecimento. Um crescente número de instituições do conhecimento espalhadas pelo mundo vem transformando o não conhecido em conhecimento com base no pressuposto de que o desconhecido ou o que é classificado como não-conhecimento não existe ou não deveria existir – em especial os tipos “alternativos” de conhecimento que são classificados pelas instituições do conhecimento (no singular!) como crença ou ideologia. Como um dos resultados deste amplo processo de colonização do(s) mundo(s) e dos “conhecimentos”, observa-se não apenas um boom no número de áreas do conhecimento e temas para pesquisa acadêmica, mas também a ascensão do produtivismo acadêmico. Com isso temos a ilusória sensação de que não há desigualdades ou exclusões.

A segunda é a extraordinária expansão das instituições e organizações que compõem e governam o sistema do conhecimento. Instituições acadêmicas se somam a e concorrem com think tanks, institutos de pesquisa, organizações não-governamentais, organizações transnacionais, etc. na produção, legitimação e divulgação de conhecimento. No pós-Guerra Fria as instituições acadêmicas não mais detêm o monopólio ou posição privilegiada dentro deste novo sistema. No início da década passada e em paralelo às seguidas crises do Consenso de Washington o Banco Mundial decidiu se transformar em “banco de conhecimento”, ao invés de banco de desenvolvimento, e juntamente com outras instituições transnacionais e um extraordinário número de think tanks passou a ser um dos mais poderosos produtores, legitimadores, classificadores e difusores de conhecimento (no singular !) em escala global. Por sua vez, proliferam organizações e instituições euro-americanas dedicadas a incluir, classificar e divulgar o conhecimento e também as instituições acadêmicas. A terceira é o processo de desterritorialização e reterritorialização desse sistema do conhecimento. Devido à rápida expansão deste sistema o não-conhecimento e a não inclusão tornaram-se intoleráveis ou inaceitáveis tanto pela direita quanto pela esquerda, tanto pelo Sul global quanto pelo Norte global. A idéia de conhecimento sem fronteiras (quem poderia resistir à sedução de um programa denominado de “ciência sem fronteiras”?) proposta pela sociedade do conhecimento defende e promove a inclusão de todos sem exceção – desde que os diferentes tipos de conhecimento (no plural) sejam convertidos em conhecimento (singular) pelo sistema dominante do conhecimento – e reforça o argumento colonialista de que não existe e não deve existir nada fora deste sistema. Tendo em vista a institucionalização do pressuposto eurocêntrico de que ficar fora desse sistema de conhecimento significa não existir, parece que não há alternativas para o resto do mundo. Esse quadro “invisível” para nossos olhares destreinados por esse mesmo sistema de conhecimento ajuda a explicar a crescente importância das instituições do conhecimento do Brasil e também a crescente preocupação de “nossas” instituições com internacionalização e com rankings pretensamente universalistas.

Tendo em vista este contexto de grandes transformações em período de tempo tão curto, não surpreende que a academia de gestão em diversos países esteja lidando com desafios que não foram previstos ou mesmo imaginados no contexto da Guerra Fria pela maioria de seus constituintes, instituições e “stakeholders”. A surpreendente ascensão da pesquisa acadêmica em gestão no contexto da globalização neoliberal tem sido acompanhada por processos de institucionalização em escala global que reproduzem e reforçam o pressuposto questionável de que não existe nada fora desse sistema de conhecimento, que é tido como universal – de acordo com os pressupostos do universalismo eurocêntrico. Especialmente no resto do mundo os avanços da área são mais impostos do que construídos por meio do exercício de autonomia.

Um problema principal é que esses processos são baseados nos conceitos de sociedade do conhecimento e mundo sem fronteiras que foram estabelecidos pelo neoliberalismo e pela tese de fim da história. Com o advento da globalização neoliberal ocidental e da tese de fim da história (Fukuyama, 1989) – em detrimento de outras globalizações, do resto do mundo e de uma enorme variedade de conhecimentos (no plural !) que vêm sendo convertidas ou eliminadas pelo sistema de conhecimento correspondente – as noções de free market e free knowledge passaram a permear nosso imaginário e nossas instituições em escala global apesar de vivermos uma época marcada por evidências e debates que insistem em desafiar tais fundamentos. Segundo um proeminente autor vinculado à terceira via protagonizada por Tony Blair a globalização significa a expansão sem limite e sem retorno da modernidade eurocêntrica em direção ao resto do mundo (Giddens,….)  Esse quadro ajuda a explicar o enorme número de acadêmicos e instituições da área de gestão vinculados ao neoliberalismo ocidental e ao americanismo pós-Guerra Fria não apenas no mundo euro-americano, mas também no resto do mundo. Por sua vez, esse quadro explica a crescente vinculação ao pós-colonialismo (também eurocêntrico !) dos que resistem a esse sistema de imposição e sedução por meio de mecanismos ambíguos envolvendo paroquialismo e estrangeirismo e que mantêm excluídas ou invisíveis as dimensões de geopolítica (do conhecimento).

Um segundo problema é que a área de gestão está mais “blindada” em relação a tais desafios do que algumas outras áreas devido à sua infância e a sua vinculação político-ideológica mais potente aos fundamentos da globalização neoliberal. Mais especificamente, a meteórica trajetória de expansão e institucionalização da academia de gestão no contexto da globalização neoliberal e dentro do sistema de conhecimento “universal” se soma a outros discursos e processos que ajudam a tornar invisível (i.e., não-conhecida) a dimensão da geopolítica do conhecimento (que por sua vez, foi convenientemente transformada em não-conhecimento). Questões (geo)políticas que marcam o contexto de seguidas crises da globalização neoliberal – tais como os eventos de 9/11 e as invasões do Iraque e Afeganistão pela administração de George W. Bush, o bloqueio das negociações de Doha pelas economias emergentes em meados da década passada, a crise da ordem neoliberal ocidental iniciada 2008, a crescente importância das economias emergentes em termos econômicos, (geo)políticos e epistêmicos, e a ascensão do sentimento no mundo euro-americano de que o resto do mundo representa uma séria ameaça para a ordem estabelecida – deveriam ter levado a área de gestão a (re)conhecer a dimensão geopolítica do conhecimento. O reconhecimento dessas dimensões invisíveis (tidas como não-conhecimento pelo sistema dominante de conhecimento) nos ajudaria a entender por que estamos tão comprometidos com produtivismo e tão seduzidos pela internacionalização. Esses eventos também desafiam a idéia neoliberal de que o apogeu definitivo da modernidade eurocêntrica requer que nos dediquemos todos tão e somente à (boa) gestão do mundo ao invés de nos dedicarmos a construir e a imaginar um mundo em que diversos mundos e conhecimentos podem coexistir (Mignolo, 2011). Visto que na sociedade do conhecimento o não-conhecido torna-se inexistente e a geopolítica (do conhecimento) é transformada em não-conhecimento, essas grandes questões continuam desconhecidas. Esse quadro de desconhecimento e invisibilidade é de crucial importância para a viabilidade desse sistema eurocêntrico de conhecimento, em detrimento de alternativas.

Esse quadro ajuda a explicar o processo, liderado por EUA e Europa (ex-Primeiro Mundo), de inclusão acelerada ou forçada na área de gestão dos excluídos (ex-Segundo Mundo) e dos subordinados (ex-Terceiro Mundo) por meio de processos de institucionalização e rankeamento. Esse processo de acelerada institucionalização em escala global do conhecimento em gestão foi acompanhado por processos de imposição, vinculados ao Consenso de Washington, e antecedidos de um longo processo de colonialidade iniciado no século XVI com a “descoberta” da América.

Desde o início dos anos 1990 temos observado crescente número de pesquisadores de gestão que criticam os processos de colonização liderados pelos EUA e secundados pela Europa. Um sentimento de anti-americanismo proliferou em décadas recentes, em decorrência da ascensão do unilateralismo dos EUA, das seguidas crises da ordem neoliberal ocidental e da ascensão de economias emergentes.  Esse quadro ajuda a explicar o surgimento de novas possibilidades a partir do resto do mundo. Tais opções geo-epistêmicas são denominadas de “des-ocidentalização” e descolonização (Mignolo, 2011). O surgimento dessas opções tem sido acompanhado de um movimento do tipo “empire strikes back”, denominado de re-ocidentalização (ver Tabela 1 a seguir).

 

Tabela 1 – Futuros globais e orientações contemporâneas para pesquisa em gestão

Orientações Descrição
  Re-ocidentalização Processo tem suas origens nas falhas da invasão do Iraque, na ascensão do unilateralismo dos EUA, e no colapso de Wall Street. Tornou-se o projeto da administração de Barack Obama, focado em reparar os prejuízos para a liderança dos EUA e do Ocidente pelas administrações de George W. Bush e Dick Cheney. O principal objetivo é reconstruir a confiança do mundo nos EUA por meio da mobilização de três dimensões: na esfera da economia, salvar o capitalismo e re-imaginar o futuro do capitalismo; na esfera da autoridade, manter a liderança dos EUA no âmbito das relações internacionais; na esfera do conhecimento, promover ciência e tecnologia com grandes corporações com a justificativa de revitalizar a economia.
 Des-ocidentalização Teve sua origem no Leste e Sudoeste da Ásia a partir do final dos anos 1990 e ganhou o suporte da China. Representa também um movimento de des-racialização por atores da “raça amarela” que ganhou força quando China e Índia rejeitaram as instruções de Washington e levaram ao fracasso da sétima rodada de Doha; tornou-se uma política de economias emergentes economicamente mais poderosas (China, Singapura, Indonésia, Brasil, Turquia, e também o Japão).
 Decolonialidade Descolonizalidade significa tanto a tarefa analítica de revelar a lógica de colonialidade quanto a tarefa prospectiva de contribuir para a construção de um mundo em que diversos mundos coexistem; trata-se de um projeto que define e motiva a emergência de uma sociedade política global que se desconecta no estágio atual da reocidentalização e da des-ocidentalização.

Fonte: Adaptado de Mignolo (2011).

 

Como resultado o sistema de conhecimento identificou a permanência de bolsões de não-conhecido nas grandes economias emergentes (em especial na China, Índia, Brasil e Rússia). Segundo especialistas em geo-política esse não-conhecido podia estar relacionado a não-conhecimento (i.e., tradições e ideologias que são atribuídas a bárbaros e não-civilizados) e explicar tanto a ascensão econômica das economias emergentes quanto os riscos correspondentes para a ordem neoliberal ocidental. Isso justifica crescentes investimentos da área de gestão em reconhecer o não-conhecido e mapear e suprimir diferentes tipos de não-conhecimento em economias emergentes por meio da mobilização dos mecanismos de produção, inclusão, classificação e publicação liderados pelo Ocidente.

As áreas de gestão estratégica, gestão internacional e marketing vêm liderando esses processos de re-ocidentalização e isso ajuda a explicar muitas das transformações recentes verificadas nessas áreas no Brasil. Economias emergentes passaram a ser tidos por instituições acadêmicas e não-acadêmicas de gestão e de outras áreas como uma fronteira a ser explorada e eventualmente contida. Correspondentemente, economias emergentes estão protagonizando grandes processos de re-ocidentalização e des-ocidentalização do conhecimento (Tsui, 2009) e isso ajuda a explicar por que estamos cada vez mais comprometidos com produtivismo acadêmico e internacionalização. A crescente importância da área de gestão até mesmo para o Partido Comunista Chinês e a acelerada ascensão das instituições acadêmicas de gestão naquele país e no Brasil, assim como na Índia, ilustram este fenômeno.

Como acadêmico vinculado há quatro anos ao (US) Academy of Management como Chair da Divisão de Critical Management espero que estes movimentos recentes e este painel ajudem a tornar menos invisível (mesmo para a blindada área de gestão) a dimensão da geopolítica do conhecimento. Sob uma perspectiva ampla de geopolítica do conhecimento, entendo que desengajamento não é uma opção. Não devemos trocar a geopolítica do conhecimento pela geopolítica da guerra. Sob uma perspectiva mais realista de “internacionalização” é esperado no Brasil o engajamento da maioria dos acadêmicos com o sistema dominante e com o re-ocidentalismo. A re-ocidentalização promove muitas oportunidades sedutoras para pesquisadores e instituições locais. Por um lado este quadro restringe as outras duas opções; por outro lado, este quadro viabiliza as outras duas opções. Apesar da assimetria entre as opções, a re-ocidentalização promove o engajamento de crescente quantidade de pesquisadores e instituições de gestão no Brasil com a des-ocidentalização. Por sua vez, a expansão dessas duas opções na academia de gestão no Brasil viabiliza e justifica a opção da descolonialidade.

Portanto, um dos desafios para as próximas décadas no Brasil é construir ou reformar as instituições vigentes (ANPAD, CAPES, CNPq, etc.) para que essas 3 opções tenham o mesmo nível de aceitação e incentivo. Dessa forma a área de gestão no Brasil estará em condições de liderar transformações de mesma ordem junto a instituições no exterior (US Academy of Management, Chinese Academy of Management, Banco Mundial, EGOS, etc.) por meio de um grande projeto que abraça a geopolítica do conhecimento, promove a substituição do universalismo eurocêntrico pela pluriversalidade, e permite a construção de um mundo em que diversos mundos e conhecimentos coexistem. Talvez seja pedir ou esperar demais da área de gestão, mas também pode ser uma excelente oportunidade para reinventarmos esta área.

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